top of page

"Tudo começou com um menear de sobrancelhas"

Um pouco da minha história

IMG_8482.HEIC

Por nós. E pelas meninas que vêm depois de nós

 

Minha mãe, Maria José, é uma mulher corajosa. Até os 18 anos, viveu em São João da Boa Vista e trabalhou na roça. Ela conta que não era raro encontrar uma cascavel entre os pés de feijão. Mas, muitas vezes, pior que a cobra era a terra arenosa: fazia todo aquele esforço render pouco. Muito trabalho, pouca colheita. 

​

Aos 18 anos, veio a Santo André para o casamento de uma prima e ficou. Morou na casa de uma tia e logo conseguiu emprego na General Electric, numa fábrica de geladeiras. Era trabalhadora, esperta, aprendia rápido. Tanto que o patrão tentou convencê-la a não deixar o emprego quando ela decidiu se casar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

Mas minha mãe havia aprendido outra lição: mulher casada não deveria trabalhar fora. Deixou o emprego. Não pôde continuar os estudos. Uma mulher cheia de capacidade e sonhos passou a dedicar a vida quase inteira à casa, ao marido, aos filhos.

 

Ela fez, e ainda faz, muito por todos nós. É uma mulher de fé — e sei o quanto essa fé a sustentou. Mas cresci percebendo algo que me marcou fundo: o trabalho das mulheres nem sempre é reconhecido, mesmo quando são elas que sustentam boa parte da vida de uma família.
Talvez por isso ela repetisse tanto para as filhas: 
"Minhas filhas, estudem. Tenham independência. Assim ninguém vai mandar em vocês." Levei esse conselho comigo.
 

​


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma causa que começou cedo. Eu tinha 18 anos quando entendi: a defesa das mulheres seria uma causa da minha vida. Estava na casa da minha irmã, no aniversário da minha sobrinha Bia. Lembro até hoje de abrir uma geladeira azul e pensar: "Eu quero fazer alguma coisa pelas mulheres."


Eu ainda não sabia como. Pensava em rodas de conversa, em espaços onde mulheres pudessem falar de suas dificuldades e, juntas, encontrar caminhos. Depois me tornei professora. E percebi: a escola também podia ser esse lugar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Ao longo de toda a minha trajetória na educação, incentivei mulheres a estudar, retomar seus projetos, conquistar autonomia. Fiz isso com amigas, mães de estudantes, professoras, tantas mulheres que cruzaram meu caminho. Nas formações de professores. Nas conversas com mães que viviam situações de violência. Nas discussões sobre currículo, sobre o que ensinamos, todos os dias, para meninas e meninos.


Porque a escola também pode transformar a maneira como a sociedade trata as mulheres. Precisamos ensinar nossas meninas a reconhecer sua força, seus direitos, sua capacidade de decidir sobre a própria vida. E precisamos ensinar nossos meninos, desde pequenos, sobre respeito, cuidado, igualdade e consentimento.

 

​
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando a violência chegou até mim. Durante anos, acompanhei histórias de mulheres que sofreram violência. Eu conhecia o problema. Mas entendi sua dimensão de outra forma quando eu mesma decidi denunciar um homem poderoso por violência sexual. Recebi acolhimento e solidariedade. Também recebi ataques. Fui questionada e culpabilizada por homens e até por mulheres.


Essa é uma das faces mais cruéis da violência: depois de ter seu corpo e seus limites desrespeitados, a mulher ainda precisa explicar por que estava ali, o que fez, como reagiu, por que resolveu denunciar.


Foi um processo difícil. Mas saí dele com uma convicção ainda maior: nenhuma mulher deveria enfrentar a violência sozinha. Foi assim que decidi transformar essa luta em participação política. Mulheres precisam estar onde as decisões são tomadas.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na política, encontrei outras mulheres dispostas a construir juntas — mulheres que entenderam que não precisamos competir entre nós, que podemos criar redes de apoio, proteção e solidariedade.


Mas também vi o quanto ainda somos poucas nos espaços de decisão. E não basta aumentar o número de mulheres na política. Precisamos de mulheres comprometidas em melhorar, de fato, a vida de outras mulheres, especialmente daquelas que trabalham, cuidam dos filhos, sustentam a casa, enfrentam jornadas duplas ou triplas, e muitas vezes não encontram uma rede pública que as apoie.


Por isso quero defender:
                                       •mais proteção para quem sofre violência; 
                                       •fortalecimento das redes de atendimento; 
                                       •formação e oportunidades de trabalho; 
                                      •creches, para que nenhuma mãe deixe de trabalhar por falta de com                                           quem deixar os filhos; 
                                       •delegacia da mulher 24 horas; 
                                       •políticas públicas que reconheçam o trabalho de cuidado. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

​​

Quero levar essa discussão também para dentro das escolas. Educação é prevenção da violência. Uma escola que ajude meninas e meninos a construir relações baseadas no respeito. Que saiba acolher uma estudante ou uma mãe em situação de violência. Que dialogue com a rede de proteção quando necessário. Minha mãe dizia às filhas: estudem, conquistem independência, para que ninguém mande em vocês. Hoje, quero transformar aquele conselho de mãe em direito para todas as mulheres. As mulheres aprenderam, muitas vezes desde cedo, a cuidar. Mas o cuidado não pode continuar sendo uma obrigação só nossa. Cuidar também precisa ser responsabilidade do Estado. E se existe um lugar onde o cuidado precisa estar presente, é a política. Porque, para mim, política é isso: cuidar das pessoas e criar condições para que cada mulher viva com liberdade, segurança, autonomia e dignidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu sou filha da escola pública

 

Até os 15 anos, eu era uma menina sisuda, de poucos amigos. Foi um projeto de educação pública que trouxe luz, possibilidades e sentido para a minha vida. É por isso que acredito tanto nela. O projeto se chamava CEFAM — Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério, que formava professores em nível médio. Período integral. Bolsa equivalente a um salário mínimo. Aquela bolsa começou a mudar minha vida.

 

Passei a comprar meus calçados, minhas roupas, meus livros, pagar a passagem e ainda guardar um pouco. Fui conquistando minha independência, aos poucos. Mas o CEFAM me deu muito mais do que uma bolsa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


No terceiro ano, veio um desafio: transformar Vidas Secas, de Graciliano Ramos, em peça de teatro. Ler a obra. Adaptar. Dirigir. Pensar figurino, cenário, trilha sonora. Tudo. Os professores orientavam mas a responsabilidade era nossa. Eles acreditavam em nosso potencial e nos davam condições para desenvolver autonomia, criatividade, conhecimento. Isso também é educação pública de qualidade: uma escola que não subestima seus estudantes. Que amplia horizontes. Que cria oportunidades.


O CEFAM mudou minha vida e abriu os caminhos que me trouxeram até aqui. Depois vieram a Pedagogia na Fundação Santo André, o concurso público para a rede municipal de Santo André onde fiquei 19 anos; a universidade, a Escola de Governo, o mestrado e o doutorado na USP. Foram muitos anos estudando educação. E, principalmente, vivendo a educação pública por dentro.


Por isso posso afirmar, sem romantizar: a educação pública transforma vidas. Mas, para transformar, precisa de investimento, estrutura e profissionais valorizados. Como professora, coordenadora e gestora, testemunhei transformações extraordinárias. Sei do trabalho sério que existe dentro de uma escola. Do esforço diário de professores, gestores, de todos os profissionais da educação.


Mas a qualidade da escola pública não pode depender do sacrifício dessas pessoas. Não é aceitável que a dedicação profissional custe a saúde física e emocional de quem educa. Não podemos naturalizar a precarização, o excesso de burocracia, a falta de estrutura, a desvalorização profissional.

 

Educação pública de qualidade precisa ser prioridade política.

 

Por isso vou defender:


                                           •valorização de todos os profissionais da educação,

                                             com melhores salários; 
                                            •formação continuada e plano de carreira; 
                                            •tempo adequado para planejamento; 
                                            •condições concretas de trabalho; 

 

A retomada e o fortalecimento do Programa Escola da Família — escolas abertas aos finais de semana, com segurança e atividades de esporte, cultura, lazer e arte. 

​

Quero a comunidade dentro da escola inclusive compartilhando seus conhecimentos, ajudando a construir esses espaços. Porque eu sei o que uma política pública de educação pode fazer na vida de uma pessoa. Eu sei porque fez na minha. E quero que toda criança e todo jovem da escola pública tenham a chance de descobrir até onde podem chegar — quando encontram uma escola que acredita neles.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Incluir é uma escolha de todos os dias

 

Arthur tinha três anos. Esperto, potente, inteligente. Gostava de observar objetos rodando, interagia pouco com outras crianças, tinha muita seletividade para comer. Sabia demonstrar, com uma expressão firme, quando algo o incomodava. Era muito sensível a determinados barulhos.
Um dia, trabalhadores foram cortar a grama da escola. As máquinas ligaram. Arthur ficou desesperado: mãozinhas nos ouvidos, rosto tomado por um incômodo enorme.


Poderíamos simplesmente tê-lo afastado dali. Em vez disso, decidimos entender o que aquilo significava para ele. Conversei com a professora do AEE (Atendimento Educacional Especializado) e pensamos numa estratégia: aproximá-lo da situação aos poucos, sem obrigá-lo, sem aumentar seu sofrimento. Primeiro, levei Arthur para observar os trabalhadores de longe. Expliquei o que estavam fazendo. Depois, uma criança maior se aproximou e os cumprimentou. Arthur observou. Até que deixou que um trabalhador se aproximasse também. Quando ele estendeu a mão, Arthur aceitou o cumprimento. Aos poucos, o medo foi mudando de rosto. Pode parecer uma pequena cena do cotidiano escolar. Para mim, ela diz muito sobre o que é inclusão de verdade.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Antes de tudo, é preciso acreditar. Uma convicção guiou toda a minha trajetória na educação: nenhum estudante pode ser definido apenas pelas suas dificuldades. É preciso enxergar suas possibilidades, entender como aprende, identificar as barreiras, construir caminhos para que avance.
 

Em 28 anos de trabalho na educação básica e no ensino superior, já vi muitos estudantes surpreenderem suas famílias, seus professores, até profissionais que não acreditavam neles.
Isso não acontece por acaso. Acontece porque há professores, profissionais do AEE, gestores, equipes de apoio e famílias que observam, estudam, planejam, tentam uma estratégia, percebem que não funcionou e tentam outra. Existe um trabalho enorme dentro das escolas que quase ninguém vê. Eu sou testemunha dele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

​

 

 

 

Inclusão exige trabalho sério. Como coordenadora pedagógica, acompanho de perto o desenvolvimento dos estudantes. Converso com professores e famílias. Observo as crianças. Estudo os casos. Construo caminhos com a equipe. Sou rigorosa com a documentação pedagógica, ela não pode existir só para cumprir burocracia.

 

O PEI (Plano Educacional Individualizado) precisa ajudar a escola a entender as necessidades daquele estudante, estabelecer objetivos, definir estratégias reais de aprendizagem.
 

O AEE precisa de profissionais, recursos e condições para identificar barreiras e construir estratégias de participação e aprendizagem.
 

E uma coisa que aprendi: família e escola precisam caminhar juntas. Quando uma família chega preocupada com o filho, precisa encontrar acolhimento, escuta, orientação — nunca julgamento.
Não podemos jogar toda a responsabilidade sobre escola e família.

 

Quem está dentro da escola pública conhece bem: o poder público ainda faz muito menos do que deveria. Professores se desdobram. Famílias se esforçam ao máximo, percorrem serviços diferentes atrás de respostas. Gestores tentam encontrar soluções.


E, muitas vezes, faltam profissionais, formação, recursos, acessibilidade e articulação entre educação, saúde e assistência. Nenhuma mãe ou pai deveria peregrinar durante meses ou anos para conseguir atendimento para o filho. Também precisamos de responsabilidade com avaliações e diagnósticos. Uma criança não pode ser reduzida a um laudo. O diagnóstico, quando necessário, precisa ser feito com seriedade, por profissionais habilitados. E a escola precisa olhar para a criança inteira: sua história, suas potencialidades, suas dificuldades, seu jeito próprio de aprender e estar no mundo. Inclusão precisa sair do papel
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

​

 

O número de estudantes que demandam diferentes formas de apoio cresceu. Nossas políticas públicas precisam responder a isso. Por isso, levo essa causa da escola para a política.

 

Quero defender:
                                  •estrutura adequada para inclusão nas escolas públicas; 
                                  •formação continuada para professores e profissionais; 
                                  •fortalecimento do AEE; 
                                  •PEIs construídos com seriedade e acompanhados de verdade; 
                                  •acessibilidade; 
                                  •profissionais suficientes e qualificados; 
                                  •apoio e orientação às famílias; 
                                  •maior integração entre educação, saúde e assistência social. 

 

E quero defender algo que parece simples, mas ainda está longe de ser realidade: nenhuma família deveria precisar lutar sozinha para garantir o que é direito de seu filho. Arthur me ensinou como tantas outras crianças ao longo da minha trajetória que inclusão não é colocar uma criança dentro de uma sala e dizer que ela está incluída.
 

Inclusão é conhecer. É acolher. É oferecer condições. É construir estratégias. É acreditar nas possibilidades de cada estudante.
 

É isso que faço dentro da escola. E é isso que quero transformar em política pública: uma escola preparada para que cada criança seja respeitada em sua singularidade e tenha condições reais de aprender, participar, se desenvolver. Porque estar na escola é um direito. Aprender também.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Quem está escutando nossos jovens?

 

Foi na juventude que minha vida ganhou novos caminhos. Durante cinco anos e meio, no doutorado, pesquisei a juventude secundarista que participou das ocupações das escolas públicas de São Paulo. Jovens enfrentando um projeto de reorganização escolar que previa o fechamento de 94 escolas. E eles venceram. Enquanto muita gente dizia que aqueles estudantes não gostavam da escola, eles mostraram o contrário. Enfrentaram a violência policial para defender suas escolas e o direito de permanecer nelas. E não foi só resistência.
 

Durante as ocupações, se organizaram coletivamente. Criaram comissões de alimentação, comunicação, segurança, limpeza. Organizaram aulões e atividades culturais. Dividiram responsabilidades. Tomaram decisões juntos. Vi ali uma juventude com capacidade de organização, consciência crítica, disposição para lutar pelo que acreditava.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

​

Hoje encontro essa mesma potência nos saraus e nas batalhas de rima do ABC. Jovens ocupando praças com suas caixas de som, suas poesias, seus artesanatos, suas histórias. Organizam as falas para que todos tenham espaço. Criam suas próprias regras de convivência. Transformam a arte em expressão, resistência e também em renda. Muitos trabalham no dia seguinte. Muitos convivem com dificuldades dentro e fora da escola. Falam sobre violência, preconceito, sobre não se sentirem ouvidos. E, ainda assim, estão ali. Criando. 

​

Fica a pergunta: quanto dessa potência a escola pública está conseguindo acolher?
É por isso que defendo a retomada do Programa Escola da Família, com escolas abertas aos finais de semana. 
Quero ver esses jovens ocupando também os territórios das escolas. Porque eles não têm apenas o que aprender. Têm muito a ensinar. Podem ensinar poesia e batalha de rima. Podem organizar oficinas de skate, futebol, basquete, dança, música e tantas outras atividades. A escola pode ser o lugar onde os conhecimentos da comunidade encontram os conhecimentos que já estão dentro dela.


Quero defender políticas que deem aos jovens oportunidades concretas de formação, autonomia e perspectiva de futuro — inspiradas em experiências como o CEFAM, que mudou a minha própria trajetória. Juventude não precisa de quem diga a ela que está perdida. Precisa de oportunidade, espaço, e de políticas públicas que a levem a sério. Eu tive uma oportunidade quando era jovem. Quero lutar para que eles também tenham.
 

Mae V.HEIC
WhatsApp Image 2026-09-15 at 16.59.36.jpeg
IMG_8882.HEIC
WhatsApp Image 2026-09-15 at 17.26.27.jpeg
WhatsApp Image 2026-09-15 at 17.37.04.jpeg
WhatsApp Image 2026-09-15 at 17.41.33.jpeg
IMG_1605.HEIC
IMG_9647.HEIC
WhatsApp Image 2026-09-15 at 18.21.38.jpeg
WhatsApp Image 2026-09-15 at 18.25.59.jpeg
WhatsApp Image 2026-09-15 at 18.31.07.jpeg
Design sem nome.png

© 2026 Professora Isabel Rodrigues.

Eleição 2026 Isabel Cristina Rodrigues Deputado Estadual — 68.437.991/0001-08 — PSB

bottom of page